Barbalha 18 de novembro de 2009, cidade pacata de ruas largas, casarões antigos. Seu corpo humano é composto por uma mistura de classes, notadamente divididas... De uma parte as tradicionais famílias que carregam, ainda, as marcas de um tempo em que o trabalho era feito por negros escravos. E a outra composta pelos que talvez descendam desses últimos que certamente edificaram a cidade, homens e mulheres simples, que ainda usam os cumprimentos cordiais de “bom dia, tarde e noite...”
Esta cidade de atmosfera tranqüila recepcionou este ano um pólo da XI Mostra SESC Cariri de Cultura em parceria com a Escola de Arte Reitora Violeta Arraes Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri – URCA. Esta união proporcionou a população de Barbalha vivenciar durante sete dias espetáculos teatrais, exposições, oficinas e muito intercambio, inserindo esta no circuito cultural e artístico da região, já que antes da instalação da escola, não ocorria movimento parecido.
Para falar de Histeria senti a necessidade desta contextualização, pois o espetáculo foi para a cidade um grande presente cênico, com apresentações exclusivas em Barbalha, pois para que seja o mesmo realizado faz-se necessário um ambiente/cenário antigo. A saber, dois motivos levaram Histeria para esta cidade, o primeiro é que o núcleo de espetáculos que tratam da loucura estava lá instalado, o segundo, a cidade esta repleta de casarões do século XVIII, este nos deixou uma arquitetura essencial para que o espetáculo do grupo paulista XIX de Teatro realize o seu Histeria.
E foi assim, já a partir das 14 horas começam a distribuição dos ingressos, correia para uns e ansiedade para outros... Eu particularmente há algum tempo queria assisti-lo. Para os homens somente 40 assentos e para as mulheres 76 (para mim o espetáculo teve inicio com esta divisão). Por fim as 15h30 o diretor Luiz Fernando Marques pede que os homens se organizem em fila para entrar no espaço, lá chegando fomos acomodados em uma fila de banquinhos que formava uma linha reta. Isso já me chamou atenção, não seria essa linha uma espécie de condicionamento do ser masculino ao longo do espetáculo?
As atrizes já estavam compenetradas com suas personagens, casando perfeitamente com as linhas, formas, janelas, texturas, cores, arquitetura, cheiros, atmosferas do antigo casarão que já não o era mais, pois já parecia um sanatório.
E veio então em seguida o publico feminino, recepcionadas pela personagem Nini, que parecia governar tudo... Chamadas de filhas foram carinhosamente recebidas e guiadas. Já era o ano de 1897, a cidade era o Rio de Janeiro, aquelas mulheres de publico passaram a integrar o conjunto de histéricas que ali eram cuidadas. As múltiplas neuroses começam a aparecer, cada uma com suas particularidades. Tudo é muito poético e simples, recordei do professor Alysson Amacio que em sua primeira aula nos dizia que, o menos é mais, então pude perceber essa citação na pratica.
Tudo é pequeno e grande ao mesmo tempo, exatamente pela verdade com que era feito, a gestualidade simples e sem exageros revela um corpo que se utiliza do cotidiano, mas que não perde em nenhum momento a energia necessária para que o espectador não se desprenda das ações.
Ao mesmo tempo em que varias historias eram relatadas, cada uma das personagens contando suas memórias, o publico feminino ia sendo integrado cada vez mais... Em quanto que o masculino ficou totalmente isolado, assim como a mulher ao longo da historia. Ali já existia desde sempre uma reflexão acontecendo, os homens foram esquecidos, rejeitados, marginalizados, tornados invisíveis ou meros espectadores, assim como foram às mulheres tornadas passivas em suas condições, por muito tempo, por impulso do masculino.
Histeria nos faz refletir o ser mulher no contemporâneo. Mesmo que ele esteja situado lá no século XIX, vai sensivelmente, nos tocando a alma e revelando o quanto foi e ainda é difícil a condição feminina. O vazio que por vezes se fez presente na sala nos leva as lagrimas, são lagrimas de dor e revolta, o branco do figurino nos aproxima da delicadeza do ser mulher, as vozes hora fortes, depois doces nos fazem enxergar a fortaleza que é ser mulher. A loucura é apenas um desvio para falar da luta das mulheres ao longo de nossa historia.
As mulheres-atrizes Evelyn Klein, Janaina Leite, Juliana Sanches, Mara Heleno, Mariana Armellini, Sara Antunes, Raíssa Gregori e Tatiana Caltabiano, ao diretor Luiz Fernando Marques de alma feminina e a todas as mulheres que se tornaram atrizes naquele dia, muito obrigado.
“... A vida é fubá que a gente assopra e vai embora...” (Histeria)
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