
Como em quase todos os dias nada novo aconteceu...Mas a vida pulsa e isso já é o suficiente para seguir sempre...
A mesma rotina: acordar... banho...troca de roupa...ônibus Crato-Juazeiro-Barbalha... o triângulo necessário para quem reside no Crato e estuda na Escola de Artes Reitora Violeta Arraes Gervaseau - URCA.
Hoje ensaiei a adaptação do conto Além do Ponto de Caio Fernando Abreu que será apresentado no encerramento da disciplina Linguagem Corporal Vocal. Para quem tiver a fim de ler segue:
Além do Ponto
Caio Fernando Abreu
chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e eu pensei que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, eu ia indo, eu ia indo e pulando as poças d’água, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, pois tem um ponto, em que você perde o comando das próprias pernas, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto. Sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta. Chovia sempre e eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca.
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